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22 de Março de 1957. É publicado, na revista
“Flama”, o 1º número da Secção “O Gosto do Mistério…”, orientada por Jartur –
curiosamente, por lapso tipográfico, identificado como “Mr. Dartur”. Domingos Cabral, com 15 anos completados
recentemente, responde ao problema naquela inserido – “O Táxi Misterioso”,
transformando, assim, em “casamento” o “namoro” que à modalidade vinha
fazendo há algum tempo, através do contacto com a Secção do “Mundo de
Aventuras”, de que era leitor há alguns anos. Sabendo, por isso, que era habitual o uso de
pseudónimo, e perante a dificuldade que sentiu na escolha, rápida, de um,
acabou, por associação, por perfilhar o “Inspector Aranha”. É que, naquele
problema, o investigador (Marcos Dias), concebido pelo Autor (Jartur), após
resolver o caso, dirige–se para o “Clube do Aranhiço”. Escolha pouco feliz,
de facto, já que ninguém inicia a construção de um edifício pelo telhado e o
principiante começava, nada modestamente, por se designar “Inspector”… De
qualquer forma, iniciou–se, assim, um longo caminho… In Mundo dos
Passatempos, 1 de Setembro de 2007 Correio Policial, 1 de Outubro de 2021 |
PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA
POLICIÁRIA PORTUGUESA por DOMINGOS CABRAL (do livro com o mesmo título, a
editar) 56 2º PARTE – CICLO L. FIGUEIREDO SECÇÃO “O LEITOR É
SHERLOCK HOLMES?” SOLUÇÃO DO
PROBLEMA “COMO MORREU BARNABÉ LEÃO?”, PUBLICADO NA
SEMANA ANTERIOR 1ª – Barnabé Leão encontrou a morte às mãos do
seu criado João da Silva. 2ª – Chega-se a esta conclusão pelos sinais de
pólvora nas costas dos dedos da vítima (o que prejudica a hipótese de
suicídio) e pelas declarações do próprio criado que negou a possibilidade de
um estranho ter entrado em casa para assassinar o industrial. João da Silva
dispôs o cenário de maneira a dar à polícia a impressão de suicídio não
tomando em consideração as marcas de pólvora nas costas dos dedos, que
forçosamente o denunciariam. Isso indicava, sem dúvida, que Barnabé Leão,
apanhado de surpresa, cobrira o rosto com as mãos quando notou que a
possibilidade de fuga era inviável. A pólvora, com o impulso do tiro, foi
chamuscar a pela das costas dos dedos, sendo impossíveis as marcas se Barnabé
Leão tivesse disparado o revólver contra si próprio e excluída esta
possibilidade somente João da Silva podia ser o assassino. Uma carta de Barnabé Leão para sua mulher,
encontrada na caixa forte algum tempo depois do crime, revelou que ele foi,
por diversas vezes, assediado com pedidos de dinheiro que o criado lhe fazia
sistematicamente. Apurou-se, ao revistarem-se alguns papeis que
pertenciam ao assassinado, que o criado tivera conhecimento de uma grave
irregularidade legal praticada há anos pelo patrão, entrando para a sua casa
como criado para se aproveitar dessa situação. Foi nos primeiros tempos tão
bem sucedido nas ameaças com que intimidava o amo, que conseguiu obter, por
diversas vezes, quantias bastante significativas. João da Silva continuava a
insistir nas ameaças exigindo-lhe mais dinheiro, a que finalmente o patrão se
recusou. Na noite do crime o criado estabelecera um "ultimatum"
a que Barnabé Leão não se sujeitou, despedindo-o em silêncio. Foi então que o
criado, receando que se invertessem os papeis, se
aproveitou da ausência da cozinheira e da ruidosa passagem das bombas de
incêndio na rua que não deixariam ouvir o tiro do revólver, resolveu matá-lo
de surpresa. O criado confessou mais tarde, quando preso, ter
descalçado os sapatos na copa; aproximou-se depois da sua vítima, que se
encontrava a ler, matando-o a tiro pela frente. Para o fazer apoderou-se do
revólver do patrão, que se encontrava no quarto deste, limpou-o das
impressões deixadas pelos seus próprios dedos, comprimiu a arma na mão da
vítima, deixando-a depois cair ao lado do assento da cadeira. Momentos depois
de consumado o crime voltou à copa, calçou os sapatos, entrou e saiu do
gabinete de trabalho, comunicando o caso à polícia como se o industrial se
tivesse suicidado. * * * FINAL DO CICLO
L. FIGUEIREDO Com a republicação, ora terminada, dos problemas
divulgados na Secção “O Leitor é Sherlock Holmes?”,
iniciada a 25 de Agosto de 1929 no suplemento “Notícias Ilustrado”, do Diário
de Notícias, damos assim por encerrado o capítulo que denominámos “Ciclo L.
Figueiredo”, criador e responsável por aquela — e que ficou a ocupar o
segundo lugar do pódio das mais antigas secções policiais entre nós
publicadas. A Secção conheceu a sua última publicação em 10
de Novembro daquele ano, encerrado com os seguintes textos: AOS CONCORRENTES: … além das classificações
do último problema policial, publicamos a lista dos nomes com direito ao
diploma de “polícia amador”. O director deste curso,
que embarcará dentro de dias para Nova Iorque, em atenção ao interesse
despertado pelos leitores do “Notícias Ilustrado”, regerá, por
correspondência, uma nova escola de Polícia Científica com elementos muito
mais completos e interessantes que decerto muito contribuirão para que em
Portugal as pessoas apaixonadas por estes estudos adquiram os preciosos
conhecimentos que nos outros países só são tratados por verdadeiras
autoridades quer oficiais quer particulares.” * * * CLASSIFICAÇÕES DO 10º E ÚLTIMO PROBLEMA: Sherlock-Holmes,
Lisboa, 18; John C. Rafles, Lisboa, 20; Alfredo
Barros de Brito, Almeirim, 10; Telio, Lisboa, 10;
Ralph, Coimbra, 20; Fantomas 2.º, Lisboa, 14; A Vaducar, Lisboa, 16; Marquesa de Valverde, Lisboa, 18;
António Barrassocis, Lisboa, 18; Clara Bow, Lisboa, 18; Vidoe, Braga,
10; Orveland, Olhão, 10; Elmeiners,
Lisboa, 20; Augusto Simões d'Oliveira, 10; Um Mealhadense - Mealhada, 10; O
Águia, Olhão, 10; Artur Fox (Lince), 18; José Álvaro Pinheiro, Aveiro, 19;
Imperador, Braga, 10; Quim Holmes, 10; Leonel, Vila
Fernando, 10; Dolceviano, Lisboa, 10; Max Linder, Faro, 10; Randof,
Lisboa 18; Charlot Gomes, Amadora, 10; Elisardo
António Roque, 18; Gaiata do Lis, Leiria, 10; João Araújo, Alcobaça, 15; J.
M., Vila Fernando, 19.” * * * PROBLEMAS
POLICIAIS DIREITO AOS DIPLOMAS DE
“POLÍCIA AMADOR”: Têm direito aos diplomas de “polícia amador” os
seguintes concorrentes: João C. Rafles; Alfredo
Barros de Brito; Augusto Simões d'Oliveira; Marquesa de Valverde; Telio; Elisiário António Roque, José Alves Pinheiro; Randof; Artur Fox (Lince); Armando Massano; Um
Mealhadense; Elmeiners; Vidoc;
Imperador; Leonel; J. M.; Cândido Guimarães; Águia; Tec X; Quim Holmes; Ralph; Atu Lupin; Renandof; Figueiral de
Figueiredo; João Polícia; Charlot Gomes; Henit; Cefenef; Fosforo; Paula Pinto; Berlock
Holmes; Fernando Gonçalves; Overland.” * * * INFORMAÇÃO E CONSIDERAÇÕES
FINAIS DO COORDENADOR DESTA
PÁGINA 1 – A “Escola de Polícia Científica”, a ministrar
a partir de Londres por L. Figueiredo – conforme por ele anunciado – nunca
chegou a marcar presença nas páginas do “Notícias Ilustrado”, nem por
qualquer outra forma a Secção Policial teve sequência. 2 – Embora já aqui tenhamos, sucintamente,
abordado o assunto (e apesar de não ser hábito tecermos comentários às
soluções dos problemas que publicamos) entendemos que se justificará um pouco
mais sobre o mesmo porquanto as de L. Figueiredo que temos vindo a divulgar
merecem-nos alguns reparos, por imprecisões e omissões que poderão ter
transmitido aos leitores menos conhecedores da modalidade uma ideia algo
confusa quanto à forma de decifrar um problema policial – decifrações que
deverão ser fundamentadas em conhecimentos, interpretações e deduções lógicas
a extrair da leitura atenta dos problemas, e não de conjecturas
sobre situações que ao solucionista foram omitidas. Um rápido exemplo, com base na solução que hoje
divulgamos. No problema a que ela corresponde, publicado na
passada semana, era dito que, tanto a viúva como a criada, “recusavam--se a
acreditar que João Silva, o criado, tivesse cometido um assassinato na pessoa
do seu patrão, porque os dois davam-se admiravelmente”. Todavia, na solução
do autor, para justificar o móbil do crime, é contraditoriamente dito que o
criado exercia chantagem sobre o patrão, assediando-o com pedidos
sistemáticos de dinheiro, e que aquele entrara ao serviço da casa há dois
meses para melhor se aproveitar dessa situação... Até poderia ser aceitável a
versão se no problema fosse dada uma pista, pequena que fosse, que permitisse
ao solucionista deduzir esses factos, mas… Outro exemplo de deficiências – só mais um, para
não sermos exaustivos: Ao leitor, eventual solucionista, é dada a
informação que “no escritório foram encontrados o industrial enterrado numa
poltrona, morto com uma bala que lhe tinha penetrado no crânio pelo meio do
frontal (...) e um revólver no assento da cadeira de braços, entre um dos
lados e a coxa esquerda do cadáver, como se tivesse caído do seu punho”, e
que “abaixo da ferida havia sinais de pólvora.” Elementos estes mais que suficientes para
determinar a existência de suicídio, porquanto: – o furo da bala no meio
do frontal inviabiliza aquela hipótese, por ilógica e muito difícil
possibilidade de execução – tanto mais quando exercida por um canhoto, como
indicia a presença do revólver ao lado da coxa esquerda do cadáver (ou, então,
a um erro de encenação grosseiro do assassino)... – porque os sinais de
pólvora se encontravam debaixo da ferida, e não à volta desta, com os sinais
característicos de um disparo à queima-roupa – ferida estrelada, chamuscada,
etc. Estes relevantes pormenores foram pura e
simplesmente omitidos na solução, sendo apenas
referido que “a pólvora, com o impulso do tiro, foi chamuscar a pele dos
dedos da vítima” (numa atitude de defesa) “sendo assim impossíveis as marcas
se Barnabé Leão tivesse disparado o revólver contra si.” Como omitida também foi no problema um indício,
por pequeno que fosse, que permitisse ao leitor suspeitar que as relações
entre criado e vítima eram más – preferindo antes levá-lo a crer que eram
excelentes... Erros e contradições que foram cometidos em
alguns outros problemas/soluções deste Ciclo – o que só referimos pelos
motivos que já aqui citámos. * * * E ficamos por aqui, encerrando definitivamente o
“Ciclo L. Figueiredo”. Entretanto, a história dos “Primórdios” continua.
Para a semana…
Fontes: Secção
Correio Policial, 1 de Outubro de 2021 | Domingos Cabral Blogue Repórter de
Ocasião, 31 de Março de 2026 | Luís Rodrigues |
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© DANIEL FALCÃO |
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