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Autor Data 10 de Março de 2026 Secção A Página dos
Enigmas [244] Competição Torneio
de Fórmula 1 Policiária Grande Prémio de Almada Torneio
Paralelo de Homenagem à Geração de 70 Problema nº 3 Publicação Blogue A Página dos
Enigmas |
A MORTE DE UM SENHOR DE OUTROS TEMPOS Paulo Teófilo
Coutinho e Sousa era um senhor de outros tempos. Residia na sua vivenda,
rodeado de criados que já mais ninguém possuía. Tinha um mordomo, uma
empregada que servia de cozinheira e fazia a lide doméstica, um jardineiro,
para tratar do vasto jardim que rodeava a casa e, pasme-se, vivia com um
sobrinho órfão, cujos pais tinham morrido num desastre de avião, assumindo
Teófilo a responsabilidade de o educar e criar. Estava naquela casa um grupo
ideal de suspeitos para qualquer crime que fosse cometido: o mordomo, a
cozinheira, o jardineiro e o sobrinho. Mas, vamos ao
crime. Teófilo fora
encontrado morto por Jarbas, o mordomo. Fora ele quem dera o alarme. O senhor
Teófilo, com setenta e dois anos, fora estrangulado no seu quarto. O cofre,
onde guardava as notas, estava aberto e o dinheiro desaparecera. Ao entrar no
quarto, olhando pela janela, Jarbas vira um vulto a correr para o muro da
frente, através do terreno preparado, a saltá-lo e a desaparecer. Fora isto
que dissera. A janela, do primeiro
andar, mas não muito alta, estava aberta, o que levava a crer que quem se
introduzira na casa e, provavelmente, matara Teófilo, fugira por lá. Tudo isto fora
observado por Narciso Morais ainda no quarto. Por descargo de
consciência, uma vez que o caso não parecia levantar dúvidas, Narciso Morais
resolveu interrogar os outros habitantes da casa. Clementina, a
empregada, mulher de cerca de cinquenta anos, disse estar na cozinha, que
tinha uma porta para as traseiras da casa. Não vira ninguém a passar pela
cozinha. Estava a preparar o jantar. Apesar de serem apenas cinco horas, o
jantar era, como sempre, elaborado, e o senhor Teófilo jantava
impreterivelmente às sete horas, pelo que tinha começado a preparar tudo
muito cedo. Acorrera ao andar de cima, quando ouvira os gritos de Jarbas e lá
ficara enquanto este saíra para telefonar, de um telefone fixo em casa da
vizinhança, porque Teófilo não queria telemóveis nem telefones em casa. Ficou
sozinha no quarto com o cadáver. O jardineiro,
Carlos, homem que rondava os quarenta anos, encontrava-se nas traseiras da
casa, de volta de um canteiro de dálias, e como o quarto do patrão dava para
a frente, não se apercebeu de nada. Quando ouviu os gritos de Jarbas, acorreu
ao local onde encontrou Clementina e o senhor Cristóvão. Finalmente,
Narciso Morais ouviu o sobrinho da vítima, Cristóvão. Era o mais jovem de
todos, com cerca de trinta anos, e disse encontrar-se a dormir. Quando
acordou com os gritos, que lhe pareceram de Jarbas, saiu do seu quarto,
encontrou Jarbas no corredor, que lhe referiu o que se passara, e foi ao
quarto do tio, onde se encontrava Clementina. Ouvidas todas
as pessoas presentes no edifício, Narciso Morais deu uma volta pelo exterior
da casa. Era uma vivenda com rés do chão e primeiro
andar sendo visível a janela do quarto de Teófilo Coutinho aberta, do lado da
frente, por onde se entraria sem grande dificuldade e sem ajuda de qualquer
escada um ladrão. A janela dava para um terreno que se estendia até ao muro,
todo em terra perfeitamente lisa, que se via que iria servir para semear
relva, dado o preparo a que fora sujeita. As outras janelas frontais da casa
encontravam-se com os estores corridos. Nas paredes laterais não havia
janelas, e até cerca de metade do terreno, visto junto dessas paredes, ainda
se via este, preparado para levar a relva. Apenas na parte que ligava às
traseiras havia vários canteiros de flores que se prolongavam pelo quintal na
parte detrás da casa, que decerto ocupariam muito do tempo de Carlos, com
diferentes caminhos a fazerem o seu contorno. Na parede traseira da casa
ficava uma outra porta, que junto com a da frente eram os únicos acessos ao
edifício. Narciso Morais
também não podia esquecer outras coisas que sabia: não havia telefones a
casa, do outro lado da rua havia uma casa com telefone, Cristóvão não tinha
ocupação conhecida e Jarbas não se dava com a cozinheira nem com o
jardineiro. – Bem!
Parece-me não haver grandes dúvidas sobre o que sucedeu. – Disse Narciso
Morais, em voz alta, mesmo estando sozinho, antes de entrar na casa, onde os
seus colegas continuavam na recolha dos vestígios. Pergunta-se: Poderá Narciso
Morais suspeitar de algum dos intervenientes? Justifique a resposta. |
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© DANIEL FALCÃO |
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